quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Crônica - Professor Rodrigo Andrade

O novo, o medo e o humano

Julho de 2020. Talvez, dez anos atrás, eu projetasse a época de hoje de uma maneira mais positiva. Há dez anos a minha filha maior estava com apenas um ano. Eu já imaginava a menina bonita de hoje, porém nem de longe eu a via estudando por meio de aulas on-line, pelo celular. Não penso nem em dez anos exatos. Ano passado mesmo, eu nem sonhava em ter que sair de casa obrigatoriamente de máscara. Em corrigir atividades de meus estudantes por mensagem de áudio. Em fazer feira e ter que desinfetar cada item comprado nela, um por um. Sinceramente, eu não me via há alguns meses lavando com detergente um saco de arroz, nem respingando álcool 70% num pacote de biscoito Treloso antes de abrir. Redes sociais mais utilizadas do que o habitual. Reuniões de trabalho on-line. Formações on-line. Festa de aniversário on-line. Shows de meus artistas preferidos on-line. Vida on-line. Medo.

É certo que como já dizia Belchior em sua célebre canção: “o novo sempre vem”. Mas o novo dá medo. Temos medo daquilo que não dominamos. Tudo o que foge de nosso conhecimento, tudo aquilo que não foi planejado, tudo o que nos tira de nossa zona de conforto dá medo. Só que a vida sempre nos ensinou a encará-lo. E assim sempre foi e sempre será. “Tenha coragem!”, “Não deixe o medo te vencer!”... É o que todos dizem. Mas, e quando o medo tem motivo real? E quando o novo ainda é tão forte, sem domínio e não passível de se enfrentar de fato? As palavras de ordem são precaução e isolamento. O que nunca foi sinônimo de enfrentamento passou a ser. Enfrentar, hoje, significa resguardar-se.

Nunca utilizei tanto a expressão “saúde mental”. Mais do que nunca a mente necessita estar sã. Há dias em que ela está tinindo: pensamentos positivos, aceitação da realidade, percepção de que há aprendizado mesmo em meio ao caos. Há outros em que as oscilações acontecem: impaciência, tédio, pessimismo, medo. Olha ele aí de novo! Ainda esta semana fui ao supermercado. Todos de máscara... Quer dizer, quase todos. Havia um senhor que se recusava a usá-la. O funcionário o advertiu, mas foi em vão. Lá se foi o senhorzinho, no alto de sua ignorância e irresponsabilidade adentrando o estabelecimento xingando a Deus e o mundo! Passou por perto de mim, distribuindo a quem estivesse ali as suas gotículas de saliva. Ainda senti uma delas tocar o meu braço. Não sei como a história terminou, mas senti medo. Não de ser infectado: eu estava de máscara e tasquei álcool em gel na região imediatamente. Eu tive medo foi da falta de humanidade.

Onde iremos chegar? O que podemos fazer? Há prognósticos e recomendações a serem cumpridas. Mas, e a empatia? Nós, seres “humanos”, a desenvolveremos todos? Esta estranha e temerosa experiência que estamos vivendo na quarentena, isolados por segurança a si e ao próximo, nos fará, num futuro que já se avista, mais compassivos? Colocar-se no lugar do outro sempre foi importante, entretanto, agora, é essencial. O meu medo pode ser o seu. E entendendo o outro eu me entendo também. Olhar positivamente o futuro está agora um pouco mais difícil do que há dez anos. No entanto, acreditar no novo a partir de uma mudança nas nossas relações mais humanas deve ser o nosso caminho. Interagiremos on-line e off-line, mas, de que forma? Que venha o novo, com medo ou sem. Todavia, que venha mais solidário, empático e humano. Atinemos para isso.

Prof. Rodrigo Andrade


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