O
novo, o medo e o humano
Julho de 2020. Talvez,
dez anos atrás, eu projetasse a época de hoje de uma maneira mais positiva. Há
dez anos a minha filha maior estava com apenas um ano. Eu já imaginava a menina
bonita de hoje, porém nem de longe eu a via estudando por meio de aulas
on-line, pelo celular. Não penso nem em dez anos exatos. Ano passado mesmo, eu
nem sonhava em ter que sair de casa obrigatoriamente de máscara. Em corrigir
atividades de meus estudantes por mensagem de áudio. Em fazer feira e ter que
desinfetar cada item comprado nela, um por um. Sinceramente, eu não me via há
alguns meses lavando com detergente um saco de arroz, nem respingando álcool 70%
num pacote de biscoito Treloso antes de abrir. Redes sociais mais utilizadas do
que o habitual. Reuniões de trabalho on-line. Formações on-line. Festa de
aniversário on-line. Shows de meus artistas preferidos on-line. Vida on-line.
Medo.
É certo que como já
dizia Belchior em sua célebre canção: “o novo sempre vem”. Mas o novo dá medo.
Temos medo daquilo que não dominamos. Tudo o que foge de nosso conhecimento,
tudo aquilo que não foi planejado, tudo o que nos tira de nossa zona de
conforto dá medo. Só que a vida sempre nos ensinou a encará-lo. E assim sempre
foi e sempre será. “Tenha coragem!”, “Não deixe o medo te vencer!”... É o que
todos dizem. Mas, e quando o medo tem motivo real? E quando o novo ainda é tão forte,
sem domínio e não passível de se enfrentar de fato? As palavras de ordem são
precaução e isolamento. O que nunca foi sinônimo de enfrentamento passou a ser.
Enfrentar, hoje, significa resguardar-se.
Nunca utilizei tanto a
expressão “saúde mental”. Mais do que nunca a mente necessita estar sã. Há dias
em que ela está tinindo: pensamentos positivos, aceitação da realidade,
percepção de que há aprendizado mesmo em meio ao caos. Há outros em que as
oscilações acontecem: impaciência, tédio, pessimismo, medo. Olha ele aí de
novo! Ainda esta semana fui ao supermercado. Todos de máscara... Quer dizer,
quase todos. Havia um senhor que se recusava a usá-la. O funcionário o advertiu,
mas foi em vão. Lá se foi o senhorzinho, no alto de sua ignorância e
irresponsabilidade adentrando o estabelecimento xingando a Deus e o mundo!
Passou por perto de mim, distribuindo a quem estivesse ali as suas gotículas de
saliva. Ainda senti uma delas tocar o meu braço. Não sei como a história
terminou, mas senti medo. Não de ser infectado: eu estava de máscara e tasquei
álcool em gel na região imediatamente. Eu tive medo foi da falta de humanidade.
Onde iremos chegar? O
que podemos fazer? Há prognósticos e recomendações a serem cumpridas. Mas, e a
empatia? Nós, seres “humanos”, a desenvolveremos todos? Esta estranha e temerosa
experiência que estamos vivendo na quarentena, isolados por segurança a si e ao
próximo, nos fará, num futuro que já se avista, mais compassivos? Colocar-se no
lugar do outro sempre foi importante, entretanto, agora, é essencial. O meu
medo pode ser o seu. E entendendo o outro eu me entendo também. Olhar positivamente
o futuro está agora um pouco mais difícil do que há dez anos. No entanto, acreditar
no novo a partir de uma mudança nas nossas relações mais humanas deve ser o
nosso caminho. Interagiremos on-line e off-line, mas, de que forma? Que venha o
novo, com medo ou sem. Todavia, que venha mais solidário, empático e humano.
Atinemos para isso.
Prof.
Rodrigo Andrade
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